Camila Ribeiro, 38 anos, leciona Língua Portuguesa há doze anos na rede municipal de Belo Horizonte. Nos últimos cinco, viu tablets chegarem às salas, projetores serem instalados e a pandemia forçar todo mundo a aprender Zoom em uma semana. Conversamos com ela por videochamada depois do expediente — entre uma correção de redação e o preparo da aula do dia seguinte.

Como a tecnologia chegou à sua escola?

Camila Ribeiro: Foi gradual, mas desigual. Em 2019, algumas unidades receberam tablets para os alunos do fundamental. Na minha escola, na região Noroeste, chegaram trinta aparelhos para quase trezentos estudantes. Ou seja: nem todo mundo pegava no mesmo dia. A ideia era rodízio, mas na prática virava disputa.

O projetor no quadro foi uma conquista maior, sinceramente. Conseguir mostrar um vídeo curto, um infográfico ou um trecho de documentário mudou minha forma de introduzir texto. Antes, eu descrevia; agora, mostro. Os alunos respondem diferente.

E a internet?

“A gente planeja aula digital na noite anterior e chega de manhã sem wi-fi. Aí improvisa no quadro branco, como sempre fez.” — Camila Ribeiro

CR: Esse é o ponto fraco. A conexão cai com frequência, principalmente quando chove ou quando a cidade inteira parece estar online ao mesmo tempo. A gente planeja aula digital na noite anterior e chega de manhã sem wi-fi. Aí improvisa no quadro branco, como sempre fez.

Temos um laboratório de informática, mas metade dos computadores está desativada por falta de peça. Manutenção demora porque depende de licitação. Enquanto isso, o professor usa o celular pessoal como roteador — gastando franquia — para não perder a aula.

A formação preparou você para isso?

CR: Na faculdade, quase nada. Os cursos de formação continuada da prefeitura melhoraram nos últimos anos: teve oficina de Google Classroom, de ferramentas de quiz, de produção de material acessível. Mas são poucas horas para uma realidade que muda todo mês.

O que mais me ajudou foi troca entre colegas. Um grupo de professores criou um canal no WhatsApp para compartilhar plano de aula, link de vídeo bom e alerta quando alguma plataforma cai. Essa rede informal salva mais do que muito manual oficial.

O que funciona em sala de aula?

CR: Atividades curtas e objetivas. Vídeo de cinco minutos, depois discussão em dupla. Quiz online com cinco questões, não vinte. Os alunos se dispersam rápido se a tarefa digital parece enrolação.

Para Língua Portuguesa, uso muito texto em formato digital com anotação: grifar passagem, comentar margem, compartilhar com o colega. Eles já leem no celular em casa; trazer isso para a escola é natural quando a infraestrutura colabora.

E o que não funciona?

CR: Achar que tecnologia substitui presença. Colocar vídeo e sentar não dá. E também não adianta cobrar tarefa online de quem não tem dados móveis em casa. Muitos alunos usam WhatsApp em modo texto; vídeo pesado é luxo.

Outro problema é a desigualdade entre escolas. Unidade no centro com lab novo e outra na periferia com tablet quebrado criam duas redes municipais dentro da mesma cidade. Isso frustra professor e aluno.

Como foi o período mais intenso do ensino remoto?

CR: Caótico no começo, depois encontramos ritmo. Descobrimos que nem todo aluno tinha como assistir aula ao vivo. Passamos a gravar conteúdo curto e liberar para assistir quando pudesse. Avaliação também mudou: menos prova fechada, mais produção de texto e portfólio.

O que me marcou foi a solidariedade. Alunos que tinham internet ajudavam colega baixando material e levando pendrive. Pais que não sabiam ler WhatsApp aprenderam porque precisavam acompanhar o filho.

O que você mudaria com um orçamento real?

CR: Três coisas: internet estável em todas as unidades, manutenção rápida de equipamento e formação contínua — não workshop de sábado, mas acompanhamento ao longo do ano. E envolver os estudantes como monitores digitais. Eles sabem mais que muita gente da direção sobre o que funciona no celular.

Mensagem para quem está fora da escola pública

CR: Educação digital não é sinônimo de luxo. É sobrevivência. O aluno que aprende a pesquisar com critério, a identificar fake news e a se expressar por diferentes mídias tem mais chance no mercado de trabalho e na vida. Mas precisa de investimento público sério — não só entrega de aparelho para foto de inauguração.

E reconhecer o professor que está na trincheira, gastando dado próprio, improvisando e ainda assim ensinando. A gente não quer herói; quer condição de trabalho.

Esta entrevista foi editada para clareza e concisão. Nome da escola foi omitido a pedido da entrevistada.